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Crianças de Ouro Preto
Todos os direitos reservados.

Fotógrafo viajando significa toneladas de fotos. Sempre com a câmera na mão, cada instante rende uma nova captura. Depois, na chegada de volta em casa, hora de separar o joio do trigo e tratar, jogar fora o que não gostou (o que eu nunca faço – haja HD!) e começar a organizar o resultado de um dedo leve em local novo.

Mas há sempre aquela foto que vale por todas as outras. Nem sempre é a melhor foto, mas a que te tocou de alguma maneira.

Estava em Ouro Preto, cidade histórica e bucólica no meio de montanhas de Minas Gerais que outrora encheram os bolsos lusitanos e ingleses, andando com minha esposa pelas ruas, conhecendo a cidade como se deve fazer, quando me deparei com estas duas crianças, provavelmente esperando alguém dentro de um carro estacionado do outro lado da rua. Estavam contentes, brincando, quando mirei a câmera e gritei um “Oi!”. Elas ficaram eufóricas! Uma alegria imensa de terem sidos notados por alguém com uma câmera. A alegria foi recíproca. Cliquei e abri um sorriso pra elas. E ao sair caminhando, acenei com um adeus prontamente correspondido novamente com euforia pelas crianças.

Saí dali feliz e de ânimo renovado. A foto valeu por cada clique feito na viagem (que não foram poucos).

Uma dos princípios mais falados desde que Henri Cartier Bresson saiu pelas ruas com uma Leica em punho é o do “momento decisivo”. Trata-se daquele momento que o fotógrafo de rua espera o tempo todo. Aquela conjunção astro-física que faz com que uma cena perfeita se forme em frente à você com sua lente. O homem pulando a poça d’água e tendo seu corpo todo refletido. Uma eterna espera que, na maioria das vezes, nunca acontece.

Não é este momento que me fascina. São todos os outros.

Quando andamos pelas ruas sem o olhar fotográfico, simplesmente fazendo os caminhos de nosso dia-a-dia, não percebemos lugares nem pessoas. É um movimento automático quase robótico que tornam os indivíduos à nossa volta quase que imperceptíveis e os lugares mais do mesmo.

Já quando saímos olhando as cenas do cotidiano, as pessoas, como elas se relacionam entre si, com o meio, e com elas mesmas, tudo é diferente. É nisso que vejo a beleza. O que para outras pessoas é banal, como duas pessoas conversando num banco de praça, pra mim é uma cena interessante de duas pessoas que, naquele momento, são únicas no mundo.

Nas minhas fotografias de rua, é isto que procuro retratar. As relações humanas. Suas reações e interações sejam entre elas, seja com o meio. Até mesmo quando o fator humano não esteja na foto, mas um sinal intrínseco dele naquela cena.

Bruno Silva ® Todos os direitos reservados

Fotografia de rua, há algum tempo, tem se tornado algo cliché. Afinal de contas, tudo que você precisa em termos de assunto está ali, no cotidiano. É sair com câmera na mão e esperar pelo momento decisivo onde todo o meio, pessoas e luz formam a composição perfeita. Parece fácil, mas não é.

Tudo que se pode fazer neste tipo de fotografia já foi feito. É quase impossível conseguir inovar, ter seu próprio estilo. Tudo parece ser uma tentativa barata de se parecer com algum mestre como Henri Cartier-Bresson ou a badalada descoberta post mortem de Vivian Maier.

Além disso, vivemos tempos de bullying digital, violência virtual, etc. A desconfiança das pessoas com o que você está fotografando é enorme. Mesmo com abordagens amigáveis e educadas ou fazendo fotos de planos mais abertos, muitas das vezes nos deparamos com reações agressivas, que são um pouco atenuadas quando percebem que estamos fotografando com filme.

Soma-se a isso a falta de segurança de se andar com equipamento fotográfico em grandes cidades, locais que pouco te inspiram (como Campinas é para mim), e a timidez para falar com as pessoas. Tudo se torna um veneno para mentes criativas e olhares aguçados. Por muitas vezes se pode pensar em parar, mas…

… às vezes não precisa de muito para a motivação e a certeza de que tudo que você faz vale a pena. Podemos estar já na 34ª foto do rolo de filme e um garoto parar do nosso lado com um sorriso maravilhado olhando o que fazemos. Fazer algumas perguntas super interessado, nos dar uma flor feita com folhas de palmeira e dizer “Dê de presente para sua esposa”. Essas pessoas que aparecem nos minutos de acréscimo que faz tudo valer a pena.

Obrigado, Bruno!

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